O devaneio que deu muito certo

Brasileiro de sangue alemão, Helmuth Brandes, largou a agricultura para fundar a Comércio de Madeira Brandes. A serraria, que nasceu sem muitas pretensões, hoje é uma indústria florestal verticalizada, que exporta produtos para países em cinco continentes   

 

Quem olha o tamanho da imensa estrutura da Comércio de Madeira Brandes, instalada no pequeno município de Carambeí, no interior do Paraná, nem imagina que tudo começou por impulso. O agricultor Helmuth Brandes deixou a principal atividade da família nas mãos dos filhos e resolveu montar uma micro serraria de 30 m², assim, sem mais nem menos. Hoje, a empresa verticalizada ocupa uma área de 17 mil m², produz 3 mil m³ de produtos de madeira ao mês, emprega 200 pessoas e possui plantios florestais que totalizam quase mil hectares. Mas a empresa proporcionou algo ainda mais importante que os impressionantes números. Fortaleceu a ligação entre três gerações dos Brandes.

Família Brandes
Helmuth Brandes Filho, Diego Brandes e Helmuth Brandes

A incrível saga de Helmuth Brandes começa antes mesmo dele nascer. O pai, João Brandes, era capitão de um navio mercante, responsável pelo transporte de mercadorias produzidas na Europa e vendida para diversos mercados pelo mundo. No fim da década de 30, João percebeu que a tensão entre a Alemanha e os países vizinhos era insustentável. Temendo o pior, tomou uma difícil decisão: deixar para trás a terra natal e começar tudo do zero em outro lugar. “Mas qual seria o destino?”, o capitão se perguntava.

Entre as viagens que fez no comando da embarcação com 25 toneladas, movida a vapor, João conheceu o Brasil e se encantou pelo país. O local e a data já estavam decididos, a viagem aconteceria em breve. Ao lado da mulher Helena e com o primeiro de oito filhos nos braços, o casal não poderia ter escolhido momento melhor para iniciar a viagem pelo Atlântico. Exatamente no dia seguinte da partida, a Alemanha fechou as fronteiras. Ninguém entrava ou saia do país. Se tivessem esperado um dia a mais, João estaria entre os combatentes do exército alemão.

O destino final da longa viagem, primeiro por mar e depois por estrada de chão, foi a Colônia Terra Nova, em Castro (PR), lugar onde outros alemães construíam morada para trabalhar no campo. João não entendia nada de agricultura, mas era estudioso. Aprendeu nos livros e na prática como plantar. O empenho trouxe resultados e o jovem conseguiu emprego na pequena cooperativa que produzia laticínios. João assumiu a responsabilidade de levar os produtos da colônia que eram vendidos em Ponta Grossa (PR) de carroça, o que acontecia uma vez por semana. Fez mais de 800 viagens. “Fui uma vez, eu tinha seis anos, lembro como se fosse hoje”, conta Helmuth, que nasceu em 1943, e desde que se recorda passou a ajudar ao pai. Naquela ocasião, eles saíram às 17h de uma terça-feira e só chegaram na manhã do dia seguinte. A dura rotina moldou, desde cedo, o estilo trabalhador do pequeno Helmuth.

“O velho caducou”

O tempo passou. Seguindo os passos do pai, Helmuth seguiu trabalhando no campo. Com a ajuda dos três filhos, plantava soja, milho e trigo. “Não tinha terreno próprio, somente um pedaço de terra bem pequeno”, recorda. Em um período ruim para a lavoura, a família decidiu diversificar e construiu uma leiteria.

Mas em 1995, Helmuth surgiu com uma ideia que espantou a todos. Com o auxílio de dois ajudantes, resolveu montar uma pequena serraria para atender pedidos de terceiros. Fez tudo sozinho, enquanto os filhos continuavam lidando com cereais e leite, atividade que sustentava a família. “Eles passavam na frente da serraria e diziam: ‘agora o velho caducou’”, recorda Helmuth, se divertindo.

Ao estilo do pai, buscou informações e fuçou muito para entender mais sobre a atividade que nunca tinha exercido na vida. O empenho foi tanto, que chegou até a desenhar os próprios equipamentos. E a coisa foi tomando corpo.

Até que a sorte sorriu de vez para Helmuth. Um americano que buscava fornecedores na região encontrou a propriedade dos Brandes. Durante a visita à serraria, ele andou por meio daquela madeira toda e de tempos em tempos chacoalhava a cabeça. “Eu só pensava, o que ele está vendo de tão errado?”, revela Helmuth. Mas na verdade não era negativa o que o gringo expressava, mas espanto! “Ele disse que nunca tinha visto um produto tão bem acabado, quase não acreditava no que via”, conta orgulhoso.

O cliente internacional financiou a compra de equipamentos e a pequena serraria dos Brandes triplicou de tamanho. O que começou com uma produção tímida de 200 m³ por mês, chegou a 2 mil m³ mensais de ripa para cerca, em 2010. “Mas e os filhos nesta história toda?”, você pergunta. Helmuth responde faceiro: “largaram tudo, não quiseram mais tirar leite, nem plantar. Foram tudo pela cabeça do velho caduco”.

Com a crise econômica nos EUA, o mercado de cercas deixou de ser atraente. Então os Brandes diversificaram a linha de produtos e também a clientela. Hoje, vendem compensado, lâmina e madeira serrada. Mais de 90% da produção, que alcança 3 mil m³ ao mês, é exportada para países da Europa, Coreia do Sul, China, Canadá e África, além dos EUA, que agora voltaram a comprar em grandes volumes.

Novos tempos

Até pouco tempo, toda a madeira usada na serraria vinha de operações florestais em áreas de terceiros. “Chegamos a contratar oito empreiteiros para colheita com motosserra”, recorda Helmuth. Mas a falta de produtividade e risco de acidentes de trabalho incomodavam.

BuffalKing Forwarder Ponsse

Em 2012, os Brandes iniciaram o processo de mecanização. A empresa, então, passou a realizar a própria operação de colheita, baldeio, transporte de madeira à fábrica e, ainda, do produto até os portos do Paraná e Santa Catarina. Para dar conta do volume movimentado, a Comércio de Madeira Brandes montou a própria frota caminhões. São 20 veículos ao todo.

Três anos mais tarde, os Brandes adquiriram um forwarder modelo Buffalo 8W. Foi a primeira máquina fabricada pela Ponsse comercializada pela Timber, que a partir do fim de 2014 passou a ser o revendedor exclusivo da marca finlandesa nos três estados do Sul. “Antes de me formar, tive o privilégio de fazer meu estágio de conclusão de curso na Klabin, na área de Desenvolvimento de Projetos Florestais. Na época em que estive lá, acompanhei alguns testes com as máquinas Ponsse. Quando houve a necessidade de adquirir um forwarder, já conhecia a qualidade dos equipamentos”, recorda Diego Brandes, neto de Helmuth, que é engenheiro florestal.

Para abastecer a indústria, são colhidas três mil toneladas de madeira de Pinus Taeda em fazendas próprias que somam 992 hectares, e mais seis mil toneladas de madeira comprada em pé. Todas as operações usam o sistema CTL (Cut to Length, ou seja, toras curtas). A escolha do processo se baseia na sustentabilidade, mais amigável ao solo.

Com previsão de crescimento, já está na mira a compra de outra máquina, desta vez um harvester. “Cobra, Ergo ou Scorpion, ainda não definimos bem o modelo, mas com certeza faremos mais negócios no futuro”, adianta Diego. O atendimento pesou na decisão pela Ponsse. “Mais até do que a qualidade da máquina, prezamos pela parceria com a Timber. O atendimento é muito ágil e os profissionais se esforçam ao máximo para nos atender da melhor forma, e o mais rápido possível. Consigo assistência técnica apenas conversando por WhatsApp, o que, na correria do dia a dia, faz muita diferença”, conta.

Vida e negócio em família

Cada um dos três filhos de Helmuth é responsável por uma área da empresa. Helmuth Brandes Filho é sócio gerente. Ele tem o estilo do pai, gosta de por a mão na massa. Por isto, quando visitar a sede da Comércio de Madeira Brandes não espere encontrá-lo sentado atrás de uma mesa de escritório. Helmuth Filho até gosta de um ar-condicionado, mas dentro da cabine do harvester que comanda. Adão Brandes, o filho mais velho, é responsável pela produção de lâmina e compensado. Enquanto que o caçula, Luis Carlos Brandes (Carlinhos), gerencia a produção de madeira serrada.

Irmãos Brandes
Adão Brandes e Luís Carlos Brandes

Apesar dos filhos e do neto Diego terem voz ativa, quem dá a palavra final continua sendo o fundador da companhia. Mas se perguntar para Helmuth o que ele mais gosta de fazer, a resposta vem de bate pronto. “Arrumar as estradas florestais no trator de esteira que comprei há muito tempo e que já está com 1.200 horas. Só eu opero, tenho até ciúmes daquela máquina”, diverte-se. 

Alias, não é exagero dizer que os Brandes vivem a empresa. Todos moram na área que compreende a indústria. Ou seja, além de trabalharem juntos também são vizinhos.  Aos domingos, eles se reúnem na casa do patriarca. O cardápio não muda muito, somente o corte das carnes: no menu sempre tem churrasco e cerveja. Quem comanda a churrasqueira é o filho mais novo que às vezes recebe uma ajuda do pai. No encontro sagrado de domingo a ideia é evitar conversa de trabalho, o que nem sempre é possível.

A pescaria é outra paixão que une três gerações dos Brandes. Além dos irmãos Carlinhos, Helmuth filho e do pai, o neto Leonardo, de 10 anos, também compartilha o hobby. Inclusive, dizem as boas línguas que é o mais pescador dos quatro. “Tem vezes que ninguém pega nada, mas o Leo sempre volta com peixe”, conta o vovô coruja.

Com e sem história de pescador, a família Brandes pretende manter o estilo de comandar a empresa que vem rendendo ótimos frutos. Olhos no futuro, respaldados pela sustentabilidade nas operações florestais e com a contribuição de cada integrante. Mas cá entre nós, no fim das contas todos sabem que quem manda mesmo é Helmuth Brandes.